Variedades & Tecnologia

A ressignificação das cidades do mundo pelo feed do Instagram

Rede social permitiu que imagens em circulação modificassem o cotidiano de vilas e metrópoles fora dos circuitos turísticos do planeta

Em 2017, o Instagram publicou um relatório mostrando que São Paulo foi a quarta cidade mais publicada na rede social naquele ano, atrás apenas de Nova York (EUA), Londres (Inglaterra) e Paris (França). Era a única cidade sul-americana em um documento repleto de lugares e metrópoles da Ásia, da Europa e dos Estados Unidos.

A presença da cidade brasileira na lista do Instagram diz muito sobre o fenômeno contemporâneo dos aplicativos de fotografias: segundo estudos publicados nos EUA, um trilhão de imagens foram produzidas em todo o planeta apenas no ano de 2015 em todo o planeta — em 2017, esse número aumentou para 1,3 trilhão. Só a rede social possui 1 bilhão de usuários ativos desde o ano passado — isto é, pessoas que postam fotos ao menos uma vez por semana.

Muitos estudiosos da área do turismo apontam que esse imenso universo de pessoas postando fotografias é capaz de modificar as percepções turísticas sobre os destinos mundiais. Eles afirmam que, por causa do Instagram, as imagens de um lugar não dependem apenas da mediação de instâncias responsáveis pela promoção dele como um ponto turístico, como governos ou agências turísticas.

Ou seja: em um mundo em que as pessoas sonham com suas viagens por meio de fotografias que circulam em aplicativos de celular, essas instituições se tornaram obsoletas. No entanto, em cidades que estão em constante renovação, o ato de fotografar ganha um novo poder: o de cristalizar imagens de lugares que nunca são fixos. Para o turismólogo José Gândara, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), as fotos de viagem são parte de experiências vividas que devem ser materializadas em redes como o Instagram por serem “relíquias” ao fotógrafo-turista, ou seja, terem conotações simbólicas suficientes para que, quando vistas, revisitem momentos especiais.


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“As postagens de fotos em redes sociais refletem o processo de decisão dos indivíduos que desejam viver determinadas experiências e ter certas recordações. As opiniões compartilhadas são consideradas fonte valiosa de informação sobre os espaços turísticos para outros viajantes. Não deixa de ser um círculo em que, a partir das fotos postadas, outras pessoas tomam decisões e criam expectativas sobre os lugares”, afirma.

A ressignificação de lugares por meio do aplicativo de fotografias ganhou três exemplos entre o ano passado e 2019: um deles é a Rue Crémieux, em Paris, que outrora uma pequena rua residencial do bairro de Bastille, distante dos pontos turísticos da capital francesa, passou a ser um dos destinos mais postados no aplicativo na Europa até agora — a hashtag #ruecremieux já tem cerca de 31 mil fotos.

Rede social

Construída no século 19 por trabalhadores pobres de Paris, as casas da viela são pequenas e suas portas dão direto para a rua. Os moradores atuais argumentam que, nos dias normais, a presença dos turistas não incomoda — o problema é quando a multidão ocupa a rua em horários inoportunos para… tirar fotos.

No Instagram é possível encontrar fotografias de pessoas em posições de yoga, rappers, influencers digitais, modelos e casais turistas que, segundo os moradores, bloqueiam as suas passagens cotidianas. No mês passado, um dos moradores abriu um perfil no mesmo Instagram (Club Cremieux) para registrar os problemas do excesso de turistas na rua.

Outro caso é o da praia de Chichibuga, na ilha de Shikoku, no Japão: em 2016, o departamento de turismo da cidade de Mitoyo, onde ela está localizada, criou uma competição para um fotolivro entre os moradores locais cuja imagem vencedora mostrava duas crianças refletidas nas águas da praia como se o mar fosse um espelho, enquanto, ao fundo, o pôr do sol permitia ver apenas sombras. A imagem rodou o mundo, trazendo consigo uma legião de turistas querendo repeti-la.

Segundo uma reportagem do jornal Japan Times, nos finais de semana, jovens de todo o país dirigem por horas até a cidade em Shikoku para esperar o pôr do sol e fotografar. Depois, como esteira do novo cartão-postal, as pessoas procuram o famoso lamen da região antes de voltarem às suas cidades. Em alguns casos, a viagem não vale a pena: nem todos os dias são ensolarados, e muitas vezes não há pôr do sol para se ver.

Rede social

Há ainda o exemplo latino-americano de La Montañita no Equador, outrora uma pequena localidade de menos de 5 mil habitantes considerada um “paraíso escondido” e secreto dos equatorianos que se tornou um dos destinos turísticos preferidos de milhares de pessoas da América Latina, dos Estados Unidos e da Europa por causa das imagens na rede social. Há 50 anos, em La Montañita, os pescadores dividiam a costa com alguns poucos visitantes alternativos, mas hoje a administração local diz que o mar de chilenos, argentinos, brasileiros e estadunidenses na região movimenta cerca de US$ 545 milhões (R$ 2,1 bilhões) anuais para a vila.

“A fotografia se tornou um fenômeno de reprodução de massa no século 19. A revolução digital só faz parte desse processo, é uma tendência histórica”, diz o professor Elinaldo Meira, professor de fotografia em uma universidade de São Paulo.

Não é a mesma percepção do artista e fotógrafo Rogério Nagaoka, também professor universitário. Para ele, há um fenômeno curioso em que a produção de fotos cresceu vertiginosamente, ao passo que a reflexão se reduziu. “Todo mundo tem acesso à uma câmera, mas ninguém pensa. Estamos no momento em que se produz a maior quantidade de fotos da história humana e, ao mesmo tempo, que ninguém reflete sobre nada”, critica. “É nesse cenário que um curso universitário é, sim, essencial”, complementa.

Para além das milhões de selfies diárias, das fotos de pratos de comida em restaurantes e dos vídeos na praia, o Instagram pode ser uma exposição permanente e constante de imagens relevantes produzidas por fotógrafos paralelos espalhados pela multidão. É o caso do funcionário público Carlos Silva, de São Paulo: formado em Publicidade e com especializações em Arquitetura quando ainda jovem, ele decidiu começar a fotografar alguns cenários da cidade em 2014 por influência do fotógrafo holandês Dirk Bakker, que reúne fãs do mundo todo por suas fotos simétricas de prédios europeus.

“Até já trocamos algumas imagens”, conta ele. Seu perfil na rede (@carlpop1234) tem pouco mais de sete mil seguidores – pouco se comparado a algumas contas famosas, que chegam a ter mais de 50 mil, como a do estadunidense Adrian Caisaguano, que clica Nova York do terraço dos prédios mais altos da cidade.

Os coletivos de fotografia são outro exemplo de como a rede social é usada como ferramenta para circulação de imagens. Alguns deles têm membros que nunca se reuniram, mas que trabalham com assuntos específicos, que vão desde os vários tipos de movimentos urbanos até aqueles que se dedicam a um estilo fotográfico, como imagens perdidas de transeuntes – caso do japonês Chul Su Kim, que clica em Tóquio.

Um dos grupos mais famosos do Instagram em São Paulo é o Coletivo Rolê (@role_sp), que, como já diz o nome, reúne fotógrafos usuais para clicar imagens da noite de São Paulo. Há alguns anos, eles chegaram a promover uma exposição na cidade com as melhores fotos tiradas nos dez anos de existência. As imagens são clicadas com câmeras profissionais e celulares.

“Éramos em treze, e sempre aparecia uma galera querendo fotografar ou gravar. Estas pessoas agora fazem parte do coletivo. Eles agregam novos olhares sobre a cidade. Em um mesmo quarteirão, dez pessoas fotografam dez coisas diferentes”, explica João Sal, um dos integrantes originais do grupo.

Mas há casos extremos, como o do salvadorenho Jonatan Funes que, como diz no seu perfil, retrata a “vida e a morte” no seu país, considerado um dos mais violentos do mundo. Funes se dedica a clicar os resultados das ações de facções criminosas, das forças armadas salvadorenhas e do submundo cruel da capital, San Salvador, em imagens que vão desde gatos caminhando sobre poças de sangue até corpos de vítimas da brutalidade dos traficantes de drogas encontrados pela cidade.

“Em San Salvador, existe muita violência, e sempre trato de buscar uma estética e uma boa composição em cenários de sangue”, explica ele ao Catraca Livre. Apesar da proximidade com a morte em suas fotos, ele diz que procura denunciar, com seu trabalho, a escalada de violência em San Salvador por conta da presença das gangues. “É preocupante a nossa situação e acho que ela precisa ser documentada de alguma forma”, explica.

As extremidades podem, no entanto, não estar no conteúdo das fotos, mas do lugar de onde elas veem. Recentemente, o jornal britânico The Guardian fez uma seleção de fotógrafos na rede social que publicam imagens das belas cidades da Ásia Central: da antiga Rota da Seda ao charmoso sistema de metrô de Almaty, no Cazaquistão, as capitais da região — que fizeram parte da antiga União Soviética — compartilham pedaços de suas rotinas com o mundo.

Em 2017, o fotógrafo Hassan Kurbanbaev mostrou suas imagens de Tashkent, capital uzbeque, cidade onde nasceu e vive até hoje, em um projeto que foi bastante visitado e curtido por revistas e seguidores no Instagram. “Tashkent não é bem exibida mesmo nos documentários contemporâneos. Eu me sentia triste por isso”, diz em seu projeto tashkent.DOC series. “Então, decidi começar a registrar a minha cidade”, finalizou.

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